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Em meia às lágrimas, morador de rua conta sua história em B. Mansa



Por Felipe Rodrigues 

“Muitas pessoas vêm essa realidade distante delas, mas estamos aqui, do lado, sem que elas nem percebam”. Com essa frase, Erickson Gomes da Silva, de 43 anos, enfrenta diariamente a rua, sua atual moradia. Natural de Brasília, ele divide com outros moradores em situação de rua, as calçadas das vias.

Longe de casa e da família, Erickson afirma que sempre teve uma vida tranquila e estruturada. Pintor profissional, nascido em berço evangélico, por 18 anos ele atuou como pregador da igreja Assembléia de Deus, na capital do país. Hoje ele afirma que o caminho que tomou não tem mais volta.

Erickson é o primeiro personagem da série especial do TRIBUNA: ‘Não somos invisíveis’.


Vida familiar


Casado por mais de 20 anos, em uma união que lhe rendeu seis filhos, Erickson afirma que o divórcio foi seu maior divisor de águas. Antes, o homem que vivia para ajudar as pessoas, hoje é aquele que mais precisa de ajuda.

— O divórcio não foi fácil, ainda encaro isso como grande dificuldade. Minha vida, que era tranquila ficou de lado. Se a culpa foi minha? Eu tenho certeza que sim, e é esse fardo que eu tenho que enfrentar diariamente, refletiu.

Enxergar os erros e lidar com eles não é fácil, mesmo para um homem que seguia à risca os mandamentos religiosos, ver sua vida declinar de forma descontrolada desencadeou uma das doenças mais temidas, a depressão.

— Eu nunca imaginei passar por essa reviravolta. Era um homem tranquilo que tinha casa, carro e trabalho constantes. Me entreguei ao álcool e aquilo me fez notar que, por um instante, vivia uma sensação boa, rapidamente me tornei um dependente químico.

De acordo com ele, o motivo da separação foi toda sua.

— Com a separação eu pude perceber o quanto era indiferente com a minha família, por ser um líder evangélico, lidava com os problemas dos outros com prioridade, enquanto meus filhos e ex-esposa ficavam de lado. Hoje eu vejo os meus erros e percebo o quão são imperdoáveis, afirmou.

Tentar amenizar os problemas dos outros era um dom. Porém teve consequência e isso foi demais para a sua família que ficava sempre em segundo plano.


Início nas ruas


Em busca de um refúgio e tentar melhorar sua condição de vida, Erickson foi para Barreiras, na Bahia, cidade na qual vive sua mãe. Após uma semana, e já dependente do álcool e de outras substâncias, começou a ter problema com seu padrasto. Foi ai que ele percebeu que aquele não era seu lugar.

— Estava com planos de ir para São Paulo, no meu bolso tinha R$50, fui pra rodovia e comecei a pedir carona. Minha primeira parada foi no estado de Minas Gerais, em Paracatu, depois cheguei a Belo Horizonte, lá peguei outra carona até o Rio de Janeiro. De lá para Barra Mansa eu vim andando, relembrou.

Durante sua peregrinação, que iniciou em janeiro deste ano, foram muitas situações que ele presenciou. Brigas, roubos, violência, entre outras condições que as pessoas que vivem nas ruas diariamente acompanham.

Há 15 dias vivendo em Barra Mansa, ainda está se adaptando a cidade. Apesar de não conhecer ninguém e nem o município ele garante que encontrou nas ruas pessoas que hoje faz parte de sua nova família.

— A sociedade julga um morador de rua como um selvagem, sem sentimentos e estruturação. Hoje eu sobrevivo pela caridade do próximo, uns que ajudam, outras não nos notam, as vezes me sinto um lixo e é nesse momento que o álcool me alivia. Furada, eu estou cada vez me afundando mais, eu me tornei
autodestrutivo, pontuou.


Saudade


A emoção ao falar dos filhos é algo notório quando tocado neste assunto, pai de três meninos e três meninas, Erickson descobriu que se tornou avô em fevereiro.

— Minha filha mais velha teve uma linda filha. O nome dela é Rebecca, com dois C, escreve direitinho ai, brincou.

Ele disse que uma das maiores tristezas foi ter perdido as fotos que carregava consigo durante sua trajetória.

— Aonde eu ia carregava as fotos da minha família, minha mãe me deu uma foto da minha neta durante a estadia em sua casa, mas eu perdi quando fui roubado, lembrou.

Por uns instantes da entrevista houve um silêncio absoluto, uma respirada profunda e um homem de 1,80 m chorando por conta da falta que sente da família.

— Não tenho mais contato com ninguém, tenho meus familiares, mas não tenho como voltar, eu me tornei um problema para eles. Não quero ser problema para ninguém. Eu não estou feliz, aliás, eu não sei mais o que é ser feliz,

Quando questionado o motivo de não pensar em voltar para sua família e iniciar um tratamento, o ex-pastor é incisivo.

— Eu tenho certeza que a única pessoa que me aceita de volta é a minha mãe. Mas pra quê voltar? Eu perdi a fé em mim mesmo, cheguei ao mais alto estágio de autodestruição e esse é um preço que eu tenho que pagar sozinho, pediu para encerramos a entrevista.



 


1 Comentários

    • Jorge Antonio Da Rocha 19:48

      Minha irmã e meu cunhado são idosos e todos nós da família estamos vivendo um terror por causa do meu sobrinho de 42 anos totalmente viciado em drogas. Já perdeu 2 famílias perdeu tudo que teve de muito bom pois foi empresário no ramo de madeireira no Maranhão, agora não sabemos no que fazer. Não aceita internação , está roubando TUDO DOS país para se sustentar nas drogas. Se não der dinheiro quebra tudo dentro de casa. Consome todos tipos de drogas. Não sabemos o que fazer já que êle é grandão e fica louco. Se puderes pelo amor de Deus nos ajude antes que a desgraça seja maior. Misericórdia Deus!

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