Barra Mansa

ESPECIAL: A culpa é do estuprador



Por Felipe Rodrigues 

Nos mês que foi celebrado 13 anos da existência da Lei Maria da Penha, vamos tratar de um assunto muito delicado que precisa de grande notoriedade, o estupro. Muitas vítimas desse crime se julgam culpadas por estarem nessa condição, porém elas precisam entender que a culpa é do estuprador e a ação de denúncia é o melhor caminho.

Em um levantamento feito pela equipe de reportagem do TRIBUNA, somente no primeiro semestre de 2019, 146 casos de estupros foram registrados na região sul fluminense, enquanto em todo 2018, tiveram 270. Os dados foram coletados no site do Instituto de Segurança Pública (ISP).


Trabalho desenvolvido com vítimas de abuso sexual


Barra Mansa tem registrado desde 2017 até julho de 2019, 126 casos cadastrados de ato de cunho sexual. Os dados foram levantados pela psicóloga e técnica de referência em violência sexual, Andrea Maciel. Ela, que trabalho no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) do município, explicou que o órgão funciona prestando atendimento psicológico, em conjunto com o Conselho Tutelar, a Justiça e a Delegacia de Polícia.

De acordo com Andrea, as maiores incidências de vítimas de abusos sexuais ocorrem no meio de convívio delas, e 90% delas são meninas a partir de três anos de idade.

– Muitos dos casos envolvem familiares, vizinhos e amigos próximos das vítimas. Nesses dez anos trabalhando com esse foco de atendimento, já tivemos casos de crianças com menos de um ano que sofreu abuso, contou.

A psicóloga ainda contou que não é comum casos de vítimas que não tenha tido, ao menos um contato com o agressor. Outra preocupação é em relação aos encontros marcados através das redes sociais e aplicativos.

– Nós tivemos um caso de uma moça de 15 anos que marcou um encontro com um rapaz através de um aplicativo e ela foi estuprada. Imagina, uma menina cheia de sonhos, pensando que estava indo encontrar um rapaz que ia levá-la para um programa romântico e passou por isso, revelou.



Andrea ainda explicou que até os 14 anos, o ato sexual não é considerado consensual, de acordo com a Lei.

Em relação ao Creas, Andrea disse que o órgão existe com o objetivo de orientar, monitorar e de ser um suporte para as vítimas. Além disso, é através dele que o encaminhamento para tratamento psicoterápico e para outros serviços da rede de saúde é feito.

– O que recebemos de denúncia e de declaração fica aqui. Não estamos aqui para julgar ou apontar a culpa para a vítima, muito pelo contrário, nós mostramos para ela que para dar um basta nesta situação é preciso denunciar, afirmou.

Já em relação aos abusadores, a psicóloga disse que 80% são homens e 20% mulheres, e da mesma forma que o agressor masculino faz parte do convívio da vítima a feminina também.

Andrea ainda disse que ser abusado (a), pode desencadear diversas patologias, como síndrome do pânico, depressão, ansiedade e, até mesmo, um desequilíbrio psíquico. Outro aspecto que pode ser desenvolvido é a hipersexualidade.

– As pessoas que passam por isso podem desenvolver diversos tipos de distúrbios, por isso a importância e identificar qualquer tipo de comportamento diferente, principalmente nas crianças. Casos de agressão sexual tanto em menino quanto meninas exige um trabalho mais intensivo, revelou.

Existe um padrão de como os agressores agem, de acordo com a profissional. Para ela, é comum que as vítimas relatem que após o ato, ele fale para elas não contarem, sob risco de fazer algum mal aos seus familiares.

– O agressor além de ameaçar a vítima, também ameaça a família e essas ameaças são as piores possíveis, como replicar o ato com um irmão ou irmã e até mesma de matar seus pais, quando escutamos essas declarações temos que manter a seriedade e sanidade para que a criança não se sinta repreendida, disse.

Denunciar é preciso. Andrea contou que esse ato, é a forma mais fácil para que o agressor seja parado.

-Essa é a única forma da vítima, especialmente quando criança, cresça saudável na medida do possível. O apoio familiar também é muito importante nesse processo. A criança não vai esquecer o que aconteceu, mas ela terá chance de parar um agressor, frisou.

Para finalizar, a psicóloga expressou sobre a importância do trabalho que é desenvolvido pelo órgão.

– Nossa maior missão promover a resiliência, que é a capacidade de superação, pois a maioria das vítimas de violência sexual chegam aqui em situação de grande fragilidade, considerou.


“Foram sete longos anos de abuso”


A moradora de Pinheiral, C.H.D., como vamos identificá-la, hoje aos 33 anos, carrega consigo grandes traumas vivido na infância. Ela revelou que durante essa época, sofreu diversos tipos de abusos, como sexual, psicológico e agressão, por parte de seu padrasto. De acordo com ela, nunca teve contato com seu pai biológico, e tinha nele sua única figura paterna.

– Minha mãe o conheceu quando eu tinha dois anos e, apesar de tudo, ele é a minha referência de pai. Ele era extremamente carinhoso e atencioso comigo, tínhamos uma relação de pai e filha até que tudo começou a desmoronar, recordou.

Segundo ela, tudo começou com agressão física. Nessa época, ele já estava morando com sua mãe que estava grávida.

-Eu tinha quatro anos quanto tudo começou, ele me batia constantemente, minha mãe tentava intervir, mas ela também era agredida por ele, mesmo estando grávida, disse.

Emocionada, a jovem começou a contar quando começaram os abusos.

– Foram ao todo sete longos anos, começou quando eu tinha quatro anos e só acabou aos 11. Nesse meio tempo, eram praticamente diários os abusos, minha mãe nem sonhava e eu tinha medo de contar. As pessoas não têm ideia da culpa que a gente carrega de viver nessa situação, revelou.

As consequências de tantos abusos sofrido pela vítima são visíveis. Hoje ela se mostra uma mulher forte, porém com um aspecto retraído. Segundo ela, na adolescência, foram diversas tentativas de atos contra a própria vida e até um longo período de envolvimento com álcool e drogas.

– Não é fácil lidar com essa situação. Eu não tinha limites, sentia que minha vida não tinha propósito, então me afoguei em ações que me prejudicaram. Hoje eu tenho quatro filhos, os dois primeiros eu nem sei que é o pai. Não tenho orgulho nenhum de ter feito as coisas que eu fiz, mas hoje eu sinto que minha vida está seguindo um rumo melhor, expressou, acrescentando que hoje ela está batizada em uma igreja evangélica e há oito anos segue casada.

Apesar de não gostar de falar sobre o seu agressor, o jovem revelou como foi o desfecho desses sete anos.


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