por Felipe Rodrigues
Há muitas décadas o cabelo representa muito mais que apenas um conjunto de pêlos que servem para proteger o couro cabeludo. A cada dia ele vem se tornando parte do corpo, principalmente das mulheres. Seja longo, curto, alisado ou encaracolado, cada um carrega na cabeça aquele modelo que mais combina com seu estilo e representatividade.
Durante muito tempo, o cabelo liso era o que dominava a sociedade e muitos para se verem parte dela, acabava cedendo aos procedimentos químicos para deixá-lo cada vez mais “apropriado”.
A TV também é culpada por isso. As atrizes mais bonitas usavam o cabelo escorrido, então aquela era a tendência.
Para os negros, esse era um grande desafio. Quem nunca ouviu o termo pejorativo: “Cabelo de negro é igual bandido, está preso ou armado”.
Acontece que ao longo dos anos, o cabelo crespo vem ganhando mais força. Prova disso é a quantidade de mulheres fazendo a transição capilar.
A reportagem especial do TRIBUNA dessa semana irá abordar o tema ‘Encrespar’, com personagens da região que assumiram o Black e deixaram de lado a chapinha e o secador e vivem livres de qualquer produtos químicos.
Cabelo como ferramenta de identidade

Cortar o mal pela raiz. Essa foi a atitude da técnica de Administração de Barra Mansa, Eliane Gonçalves, de 47 anos, quando decidiu iniciar sua transição capilar. O processo longo de esperar o cabelo natural ir crescendo para, gradativamente, ir contando a química, não era uma opção e raspar a cabeça foi algo que resolveria de uma vez por toda essa situação.
O processo de transição, geralmente é longo e desgastante e, para ela, acompanhar esse período não era algo pelo qual cogitava. A pele negra é hoje um motivo de orgulho para Eliane, porém há dois anos, período no qual ela não usa mais alisantes, foram libertadores.
— Eu sempre falo que nascer negro é um fato, mas ser negro é algo que tem que vir da essência em encontrar realmente o seu eu, o eu negro. Digo também que estive negra na sociedade por 45 anos, e hoje sou negra na mesma sociedade há dois anos, agora com voz e lugar, expressou.
Aos 19 anos, ela ingressou em seu primeiro emprego no comércio. No ambiente, ela percebeu a necessidade de se enquadrar no biótipo imposto pela sociedade, por lidar com o público. Apesar de nunca haver fala pejorativa em relação a sua pessoa nesse estabelecimento, ela sentia que os olhares falavam por si só. Resultado disso, foram longos anos de produtos, chapinha e secador.
Em relação ao preconceito, a moça garante que sempre existiu, inclusive nos dias atuais, e o lugar onde mais acontece essa situação, é dento dos transportes públicos. Sobretudo, porque o cabelo raspado era entendido como uma doença.
— É incrível os olhares fulminantes, você se torna tudo o que eles pensam. As pessoas não respeitam sua escolha, sua verdade e identidade. Em alguns momentos eu me coloquei no lugar de pessoas que fazem quimioterapia, os olhares são constrangedores. Eu me tornei tudo na sociedade, menos uma mulher que optou ter o cabelo crespo novamente, considerou.
O fato de como Eliane lida com essa situação é a mesma, na qual ela vem enfrentando ao longo de toda sua vida. Mantendo a postura do respeito.
— O respeito é primordial em qualquer situação e tudo que acontece em nossa vida a gente deve tirar lições boas e ruins. Essas situações me fortaleceram e fortalecem até hoje. Como pessoa e como mulher negra assumida. Gosto quando tenho a oportunidade de ser motivadora, pois ainda tem pessoas que não se ver dessa forma simplesmente estão na sociedade, mas elas se pautam por ser aquilo que a sociedade quer dela, seja fazendo chapinha ou usando produtos químicos mais agressivos, indicou.
Sobre as possibilidades de variar o cabelo, a técnica em administração, disse que mesmo tendo o cabelo curto, as opções são bem diversas.
— O meu cabelo é curto, e vivo bem com ele assim, gosto de variar usando lenço, bandana e acessórios. Quem é feliz e se aceita do jeito que é não ver dificuldade em nada. O importante é estar bem consigo é se olhar no espelho e refletir a harmonia que transmite. Isso que importa, o mundo me verá bem e eu farei o melhor para o mundo. Os olhares são coisas pequenas que eu acredito que o povo vai superar, pois somos capazes de sempre evoluir, afirmou.

Há dois anos e cinco meses, Eliane faz parte da Pastoral Afro da Paróquia de Santa Cruz, em Barra Mansa.
Para ela, ser membro de um grupo onde a identidade de raiz é a maior causa foi o que despertou nela o seu interior e raízes. Estar em sintonia com o grupo, lutando por causas a favor dos direito dos negros, com o cabelo alisado quimicamente, não era uma representatividade.
— Sou muito agradecida por me permitir ser negra em uma sociedade com o padrão estipulado e isso é algo que você se descobre capaz. Nós podemos fazer parte do que queremos, somos negros, não apenas uma estatísticas, completou.
Três anos de transição

O cabelo na vida da advogada e maquiadora Luciene Nascimento, 26 anos, moradora de Quatis, sempre foi um tabu, principalmente durante a infância, onde sua mãe só o mantia trançado.
Apesar de sempre gostar do cabelo da filha, nunca a deixava usá-lo solto. Esse período foi bem marcador na vida da advogada, porém chegando ma adolescência, a personalidade entrou em campo e a trança já não era mais o tipo de penteado que ela se agradava.
Como grande parte das meninas, a fase da adolescência é um momento em que elas não querem ser remetidas à imagem infantil e a única forma de usar o cabelo crespo solto seria mudando a estrutura dele.
— Na minha adolescência ninguém usava o cabelo crespo livre, nem na vida e nem na TV. Por esse motivo eu comecei a alisa-lo , eu tinha mais ou menos uns 13 anos, e foi foi assim que eu comecei a fazer o rompimento da minha imagem de criança, para um estilo que não lembrasse aquela época, mas que pudesse ser usado solto, explicou.
Para a jovem, essa época foi bem marcante, pois o cabelo crespo sendo usado de forma livre era visto com um problema, desde quando era mais nova, e esse problema poderia ser resolvido fazendo o alisamento.
— Me lembro que no meu aniversário eu fiz o pedido para a minha mãe, disse que queria alisar meu cabelo. Ela ficou bem triste, porque gostava do meu cabelo daquele jeito, mas eu queria mudar. Aquilo era um símbolo na minha adolescência e poder acessar o espaço da escola, que é tão exigente no meio jovem isso determinava muito o seu lugar no espaço da escola que geralmente é muito cruel”, relembrou.
Com o passar do tempo, muitas coisas mudaram. A facilidade ao acesso à internet e a representatividade das mulheres aumentaram. Com isso, surgiram inúmeras mulheres expondo seu cabelos naturais que serviram de inspiração para muitas outras. Inclusive para Luciene.
— Minha transição foi um processo muito cansativo, como costuma ser para muitas mulheres. Algumas tem a coragem de fazer o que a gente costuma chamar de ‘Big Chop’, o grande corte, que é recortar toda a estrutura do cabelo que está modificada para vê-lo crescer desde o inicio. Não foi o que eu fiz, eu comecei a deixar de lado o alisamento para fazer o relaxamento que danificava menos a estrutura. E esse procedimento durou uns três anos, afirmou.

Sobre o procedimento a advogada explicou que é um momento difícil, pois durante a transição você se sente feia, mas o resultado final foi satisfatório.
Para ela, esse novo estilo de vida também ajudou a se aproximar da relação com a sua identidade que é o que dar significado a vida.
— Hoje a minha relação com a minha identidade me fez muito mais consciente do individuo que eu sou no mundo e vem fazendo toda a diferença. Eu tenho tanto afeto pela estrutura do meu cabelo, pois ele representa o que eu sou. Isso se remete aos meus ancestrais e faz com que eu entenda, que mesmo a sociedade impondo alguns parâmetros de estética, o mais importante é estar bem consigo mesmo e ser feliz. Isso basta, ponderou Luciene.
Homens também tem vez

E para quem acha que manter o cabelo encrespado é apenas para as mulheres, estão muito enganados. De um tempo pra cá a moda está fazendo, literalmente, a cabeça dos homens também.
Prova disso é o jovem Gustavo de Souza, de 25 anos, professor de dança e estudante de jornalismo. Segundo ele, durante toda a infância o seu corte de cabelo era raspado ou no máximo bem curto. Porém, ja na adolescência, o jovem sob influência de alguns cantores de Rap e Pagode, começou a deixá-lo crescer, fazendo o uso de química.
— Fazia o uso de produtos que deixavam meu cabelo mais suavizado e conseguir um resultado mais ondulado ou cacheado, pois era mais aceito na sociedade, expressou.
Seu período sob uso de produtos químicos durou cerca de quatro anos, porém hoje ele não se ver mais fazendo o uso e assumiu o crespo. Sua inspiração veio de uma época marcante para muitos, inclusive para quem não viveu o período da brilhantina.
Comecei esse procedimento por questões de estilo e por aceitação própria também. Sempre gostei do estilo que via em clips e fotos dos anos 70 e 80”
Gustavo disse que homens que deixam o cabelo crespo crescer também sofre com o preconceito, porém velados e disfarçado em brincadeiras de mau gosto.
— São diversos os lugares onde essas situações acontecem. É na rua, em local de trabalho ou, até mesmo, em instituições de ensino. As pessoas fazem piadas, mas se escondem em um “tô brincando”. Não digo que todos cometem esse tipo de brincadeira ofensiva e há muitos que às vezes nem tem a intenção de ofender. Mas digo pelo fato de trazerem dentro da sociedade onde vivemos algo que está tão enraizado e que fazem sem perceber, explicou.
Lidar com essas situações é algo que, para Gustavo, sempre esteve presente em sua vida. Por ser negro, desde a infância, o preconceito era algo comum, apesar de cruel. Porém o estudante afirma que sempre soube se sobressair rebatendo com respostas irônicas.
Apesar de ainda haver muito preconceito racial, para o estudante, o que realmente importa é a autoestima e estar bem consigo mesmo.
— Desde quando deixei o cabelo crescer me sinto melhor comigo mesmo. Por saber que posso usá-lo solto, preso, com tranças, armado ou enrolado na esponja. É muito boa essa sensação de não me limitar a um padrão, como vivi na infância, finalizou.

