Dia 8 de fevereiro. A data mais triste da história do Clube de Regatas do Flamengo. Há exatos três anos, dez famílias perdiam dez filhos. Dez adolescentes. Dez jogadores. Dez vidas. Dez Garotos do Ninhos.
Entre as vítimas, estava Arthur Vinicius que era de Volta Redonda. Ele morreu na véspera do aniversário de 15 anos. O adolescente era zagueiro da base do Fla. Na próxima quarta, ele completaria 18 anos. A família dele fechou um acordo na justiça em dezembro de 2020.
Ele era um dos dez meninos que sonhavam em ter o nome entoado no Maracanã. Ou terem uma música dedicada a eles. E eles têm. Mas infelizmente não da maneira que gostaríamos.
Às 5h17, do dia 8 de fevereiro de 2019, começaram as chamas no contêiner que servia de alojamento para os adolescentes.
Naquela madrugada, haviam 24 meninos no local, cuja capacidade é para 36 pessoas. Além disso, tinha outros dois garotos em um contêiner ao lado.
Na casa ao lado, tinha o monitor responsável pelos menores. Contudo, de acordo com o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, é preciso ter um monitor para cada dez jovens. Além disso, o órgão também exige uma “equipe noturna acordada e atenta” a movimentações.
O incêndio
O incêndio começou por conta de um curto-circuito no ar-condicionado no quarto 6. Os três ocupantes do quarto 5 — Filipe Chrysman, Jean Sales e Felipe Cardoso — se salvaram. Ao lado, estavam Samuel Costa e Rykelmo Bolivia Vianna — uma das vítimas fatais. Enquanto no quarto ao lado, todos — Rayan Lucas, Wendel Alves, Naydjel Callebe, João Vitor Gasparini, Kayque Soares e Caike Duarte — conseguiram escapar.
No entanto, no quarto 3, a situação foi diferente. Dos cinco ocupantes, três —Cauan Emanuel, Francisco Dyogo e Jhonata Ventura — sobreviventes escaparam pela janela, que teve as grades quebradas pelos monitor e o segurança do clube.
Mas os meninos tiveram ferimentos graves. Jhonata, inclusive, teve de 30 a 40% do corpo queimado. Mesmo assim, o atleta se recuperou e reestreou no futebol em junho do ano passado, no Brasileirão sub-17.
Entretanto, os outros garotos do quarto, Athila Paixão e Vítor Isaias, não conseguiram escapar.
Já no quarto 2, houve apenas um sobrevivente. O adolescente Pablo Ruan conseguiu se espremer entre as grades e sair a tempo. Contudo, Christian Emero, Jorge Eduardo e Samuel Thomas Rosa não tiveram a mesma chance. Por fim, o último quarto, o mais distante do incêndio, não teve sobreviventes. Gedson Santos, Bernardo Pisetta, Arthur Vinícius e Pablo Henrique faleceram no local.
A repercussão
Logo nas primeiras horas da manhã do dia 8, os chefes dos poderes municipal, estadual e federal se solidarizaram com as famílias das vítimas. A cidade e o estado do Rio de Janeiro decretaram luto oficial de três dias pelos dez Garotos do Ninho.
Jornais de todo o mundo repercutiram o incêndio do Ninho do Urubu. Além disso, jogadores de rivais e de gigantes estrangeiros também enviaram condolências — por exemplo, Pelé, Roberto Dinamite, Messi e Cristiano Ronaldo.
As homenagens também se estenderam para dentro dos gramados. Antes de todas as partidas após a tragédia houve um minuto de silêncio para as vítimas.
O Corinthians, por exemplo, chegou a colocar o escudo do clube ao lado do Flamengo em uma camisa antes da partida. Já os jogadores do Sport carregaram o nome das vítimas no uniforme de jogo. O Vasco utilizou uma camisa de jogo com o escudo do Rubro-Negro com a mensagem “em frente, juntos”. A camisa cruzmaltina está no Museu do Flamengo, na Gávea, e é o único artefato de outro clube no local.
Além disso, muitos jogadores prestaram homenagens. Foram os casos de Fred, Everton Cebolinha e do cria da base Lucas Paquetá. Por coincidência do destino, o Garoto do Ninho marcou o primeiro gol na Europa no fim de semana seguinte ao incêndio que matou os nossos 10.
Homenagens da torcida
A semifinal da Taça Rio entre Flamengo e Fluminense, marcada para o dia 9, foi adiada. Entretanto, houve festa em torno do Maracanã. Isso porque torcidas dos quatro grandes cariocas fizeram uma série de homenagens ao dez adolescentes mortos na tragédia.
Além disso, a Gávea também foi um lugar de celebração da memória das vítimas. As torcidas organizadas do Flamengo se reuniram para um ritual.
Primeiramente, todos cantaram os nomes dos dez garotos, como se fosse uma escalação pré-jogo nas arquibancadas. Em seguida, cantaram “parabéns” para Arthur Vinícius — cujo nome é uma homenagem ao Zico — que completaria 15 anos no dia 9 de fevereiro. Os torcedores também fizeram uma oração, um minuto de silêncio e cantaram o hino do Flamengo. Por fim, um representante de uma organizada pediu a união das torcidas.
“A gente não precisa se reunir só para celebrar tristeza. Doeu para todo mundo igual. A partir de hoje, em homenagens aos que se foram, vamos mudar nossa história. Peço a ajuda de todo mundo, em nome do Flamengo e desses garotos”, apelou o torcedor.
