A Polícia Civil está investigando uma denúncia de violência obstétrica durante um trabalho de parto normal que terminou com a morte do bebê no Hospital da Mulher de Barra Mansa (RJ). O caso aconteceu no dia 6 de março. As informações são do G1.
A jovem, de 19 anos, procurou a delegacia para denunciar os abusos e situações de constrangimento que diz ter sofrido da equipe médica. Ela estava acompanhada da mãe e do companheiro.
Segundo o relato, a jovem chegou a implorar, em prantos, para que fosse feito o procedimento de cesariana, já que não suportava mais as dores e não tinha mais forças para expelir o bebê, mas teve o pedido negado.
“A mãe permaneceu durante umas 12 ou 13 horas fazendo força, sem condições, e a todo momento constrangida, ouvindo que a culpa era dela. Essa criança já nasceu com parada cardiorrespiratória. Foi reanimada, foi levada até a UTI, mas, dentro de poucas horas, acabou falecendo”, disse o delegado Michel Floroschk.
Durante o procedimento, a jovem diz ter escutado frases como “faz força, senão seu bebê vai morrer” e “estou caprichando aqui em baixo que seu marido vai animar para fazer outro”, no momento em que recebia pontos logo após a criança ser levada em estado grave para a UTI.
A jovem disse ainda que, durante o parto, um dos médicos fez com ela a manobra de Kristeller. Trata-se de uma prática já banida pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS) por se tratar de uma técnica agressiva, que consiste em pressionar a parte superior do útero para acelerar a saída do bebê, o que pode causar lesões graves.
Ainda segundo o depoimento da família, o bebê não chorou após o nascimento e estava com tom de pele roxo. Pouco depois de ser levado para a UTI, onde ficou intubado e respirando com ajuda de aparelhos, a criança não resistiu e morreu.
A Polícia Civil abriu um inquérito para apurar o caso. “O que nós queremos saber é o seguinte: a morte do bebê é imputada à equipe médica? Essa equipe médica gerou um risco proibido? A demora está dentro dos protocolos médicos, ou houve uma omissão, ou assumiram o risco de produzir o resultado?”, explicou o delegado.
“A pessoa que é gestante, quando vai para o hospital para ter o seu filho, não espera jamais, como resultado, voltar com um caixão branco para enterrar. Então, alguém vai pagar por isso”, lamentou Michel Floroschk.
Nesta primeira etapa da investigação, foram ouvidas a jovem, a mãe dela e o companheiro. A conclusão inicial é que o bebê estava saudável.
“Primeiramente, nós fizemos a oitiva das pessoas que participaram do pré-natal, para que nós tivéssemos a certeza que não havia qualquer deformidade ou qualquer doença, tanto da mãe, quanto do feto. E o pré-natal transcorreu de forma tranquila. Uma criança viável, saudável, pelos exames. Estava tudo dentro dos conformes. A criança nasceu com 3,445 kg, uma criança bem formada, dentro do período de gestação”, disse o delegado.
Inquérito será concluído em 10 dias
O próximo passo é reunir documentos, prontuários e colher os depoimentos de médicos e enfermeiros. O resultado das investigações vai definir se haverá indiciamento de algum profissional que participou do parto.
“Nós queremos saber se houve uma omissão, para ser responsabilizado de forma culposa, ou dolosa, se eles assumiram o risco de produzir o resultado. Isso só vai ser possível com a colheita de todos os depoimentos. Hoje, eu posso dizer que eles serão responsabilizados. Resta saber se por omissão, um crime culposo, ou doloso”, disse o delegado.
Outro ponto questionado pela Polícia Civil é o fato das autoridades policiais não terem sido comunicadas imediatamente da morte da criança.
“O que nos causa estranhamento, o que nos causa uma certa perplexidade, é o médico da UTI ter atestado a morte deste bebê e não ter comunicado a delegacia. Nós instauramos um procedimento para apurar uma fraude processual, porque a falta de necropsia dessa criança, ou a falta de análise dos nossos médicos legistas, atrapalham as investigações”, apontou Michel Floroschk.
“O que nos queremos saber é o seguinte: o médico que atestou a morte dessa criança tinha a intenção de prejudicar as investigações e encobrir um erro médico anterior? Isso vai ser apurado, também”, acrescentou.
A previsão é que o inquérito deste caso seja concluído em 10 dias.
Procurada pelo g1, a prefeitura de Barra Mansa, por meio da Secretaria de Saúde e da direção do Hospital da Mulher, informou que está apurando o caso.
