Não há número oficial, mas estima-se que mais de 50 trabalhadores da CSN foram demitidos nos últimos dois dias – hoje e ontem – em consequência do movimento paralelo dos trabalhadores. Após a reforma trabalhista, o sindicado dos Metalúrgicos não precisa mais ser comunicado sobre os desligamentos. A assessoria do órgão sindical não sabe o número exato. O de 50 demitidos foi levantado pelo movimento independente.
O TRIBUNA procurou alguns demitidos que relataram à forma em que foram comunicados. “Na verdade não fomos comunicados, simplesmente bloquearam nosso crachá”, contou um dos demitidos, de 33 anos e oito na empresa.
Eles relataram deboche de guardas patrimoniais e descaso do setor do RH. “Quando meu crachá foi bloqueado, dois guardas começaram a rir e disseram ‘mais um demitido’”, disse outro demitido, de 27 anos e há cinco na empresa, que continuou:
— Não deixaram entrar nem para tirar meus pertences pessoais. Tive ajuda de um amigo — relatou ele.
Os entrevistados pediram o anonimato. Isso porque, o Ministério Público do Trabalho recomendou que a CSN reintegrasse os demitidos e deu um prazo de 24 horas para siderúrgica se manifestasse, o que não foi cumprido pela empresa de Benjamim Steinbruch.
— Tem um filho recém nascido e estava lutando por um salário mais digno para sustentar minha família. Foi uma crueldade e uma falta de humanidade. Não somos números e sim pessoas, honestas e pais de famílias — desabalou outro demitido, de 29 anos e seis na empresa. “Acredito que movimento não perde força. Vai ganhar ainda mais”, finalizou.
Nesta terça-feira (12), o bispo de Volta Redonda, dom Luíz Henrique da Silva Brito, manifestando apoio aos trabalhadores. Confira a nota na íntegra:
“O clamor dos trabalhadores chegou aos ouvidos do Senhor todo-poderoso” (Tg 5,4b)
Com preocupação humana e pastoral, tomei conhecimento da mobilização que se encontra em andamento entre numerosos trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Trata-se, dadas as informações recebidas, de uma legítima e necessária organização em vista da reivindicação de melhores salários, de participação nos lucros e rendimentos da empresa e ampla cobertura do plano de saúde.
Diante disso, faz-se necessário ressaltar, em conformidade com a Doutrina Social da Igreja, que não é lícito obter o lucro à custa da dignidade do trabalhador, da sua humilhação e da violação dos seus direitos.
As pautas acima mencionadas revelam-se, portanto, justas e dignas de apoio e solidariedade por parte daqueles que creem no Deus-amor e desejam que a sua vontade seja feita na terra, tal como é feita no céu.
De fato, “o trabalhador deve ser remunerado de tal modo que tenha a possibilidade de manter dignamente a sua vida e a dos seus, sob o aspecto material, social, cultural e espiritual, considerando-se a tarefa e a produção de cada um, assim como as condições da empresa e do bem comum” (Gaudium et spes, 67). O que significa dizer, que aos trabalhadores deve ser assegurada justa remuneração, que seja capaz de suprir as suas necessidades e as de sua família.
Além disso, os trabalhadores devem participar, de modo justo, daquilo que eles mesmos produziram. A Igreja, em sua Doutrina Social, não condena o lucro, desde que seja partilhado por todos aqueles que ajudaram a gerá-lo, o que comumente se chama “participação nos lucros e resultados”.
Lamento que um grupo de trabalhadores, ligados à organização da mobilização em questão, tenha sido sumariamente demitido. Pergunto-me se a demissão desses trabalhadores não esteja fundada no fato de que, justamente esses, estejam à frente da mobilização, o que tornaria essas demissões imorais e pecaminosas. Por isso, expresso vivamente o seguinte apelo: que aos trabalhadores demitidos seja devolvido o seu posto de trabalho, assegurando-lhes, assim, a dignidade e a paz de espírito.
Por fim, apelo à consciência dos que estão investidos de autoridade e aos dirigentes da CSN para que contribuam, conforme suas possibilidades e competências, no avanço das negociações, procurando, de modo preferencial, corresponder às necessidades dos trabalhadores.
Próximos das festas pascais, desejo ardentemente que a glória do Cristo ressuscitado brilhe sobre a vida de todos os que esperam ver realizadas as suas esperanças.
Dom Luiz Henrique da Silva Brito
Bispo Diocesano”
