Por Felipe Rodrigues
Não é fácil deixar para trás suas coisinhas, sua privacidade e seu cantinho. Mas é necessário abandonar a casa para proteger um bem maior, a vida. A residência pode ser simples e pequena, mas é o lar e o refujo dos moradores.
Na última sexta (12), a equipe do TRIBUNA passou o dia com os desabrigados da chuva do último domingo (7) em Barra Mansa. Eles estão na Igreja Assembleia de Deus, na avenida Domingos Mariano, no Centro.
Lá, os vizinhos Benedito Dias, 60 anos, e Vera Lúcia de Oliveira, 63, da Vila Natal, hoje dividem o espaço com mais dois adultos e três crianças no abrigo.
Os dois relembraram como foi o momento de interdição de seus lares não é algo fácil para eles. “Foram praticamente três dias de intensa chuva, a gente sabia do risco de desmoronamento, mas não queria sair de casa”, disse dona Vera.
Já Benedito foi um pouco mais positivo: “Acredito que qualquer hora tudo vá desmoronar, nós ficamos tristes porque tudo nosso está lá, saímos apenas com a roupa do corpo e documentos, mas a vida vale muito mais que uma casa”, refletiu.

Apesar do perigo em se manter nas casas, dona Vera contou que teve pessoas que recusaram se retirar. “Algumas pessoas ficaram lá, outras foram para casa de parentes e vizinhos, nós tivemos que vir, pois não tinha outra opção. O barranco já está descendo, uma casa teve lama invadida, se as chuvas continuarem, vai descer mais”, explicou.
Seu Benedito relembrou um dos piores dias da chuva desta semana. “Terça-feira, choveu muito, de repente ouvimos um barulho muito alto, parecia que estava descendo tudo, só me lembrei de ajoelhar e pedir a Deus proteção e livramento, não aconteceu nada, mas foi um grande susto”, disse.
“Estou me sentindo um peixe fora d’água. Mas não tenho o desejo de voltar para lá, essa situação serviu para mostrar o risco que estávamos correndo, a situação não vai mudar da noite para o dia. Já que tivemos que sair, vamos lutar para conquistar um lugar melhor e mais tranquilo para envelhecer sem preocupação de a qualquer momento estar soterrada”, indagou.
A tristeza no olhar é tão intensa quanto a fé de que tudo vai dar certo. São todos unânimes quando questionados onde gostariam de estar: em suas casas. Mas, apesar de tudo, são gratos.
“Minha gratidão e fé em Deus são os pontos que me permite olhar para frente e ter a esperança de que vamos sair dessa. Nada é por acaso. Como diz aquele ditado: ‘Deus escreve certo por linhas tortas’”, concluiu a religioso.

Solidariedade
Em Barra Mansa, 16 famílias perderam tudo o que tinham, e hoje estão se adaptando em casa de parentes, amigos, vizinhos e abrigos. Três delas, totalizando sete pessoas, estão sob cuidados da Secretaria de Assistência Social de Barra Mansa, desde a última quinta-feira, dia 11.
Hoje eles estão abrigados na Igreja Assembléia de Deus, no Centro da cidade, desde que a Defesa Civil interditou suas casas devido ao alto risco de desabamento da encosta que fica na parte de trás do quintal das famílias.
A ação aconteceu no bairro Vila Natal, no Paraíso de Baixo. Na ocasião 30 casas foram interditadas.
“Uma noite de terror”

“Foi em um piscar de olhos e a minha casa estava totalmente tomada pela água da chuva”. Sob esse relato começamos a contar a nossa primeira história.
Camila Aparecida de Souza Dutra é supervisora de vendas e tem 28 anos. Ela mora no bairro Retiro, em Volta Redonda, com sua mãe e uma irmã, que desde dezembro é acamada devido a um AVC (Acidente Vascular Cerebral).
Relembrar a noite em que tudo aconteceu não é algo fácil para a nossa personagem, para ela a dor de ter perdido sua cadela afogada e outra que está desaparecida são os fatores que mais doem.
Pânico, medo, desespero foram apenas alguns dos sentimentos que a família passou em meio a invasão da água em sua residência.

“Não tivemos tempo para perceber, demos janta para a minha irmã e após isso fiquei no quarto com ela. Minha mãe estava na cozinha tomando café quando sentiu a água em seu pé. Nesse momento ela me gritou, mas a água já estava em todos os cômodos e a porta já não abria mais, porque o nível do lado de fora estava maior e pressionava a porta”, relatou.
Outro problema que a família enfrentaria era o que mais preocupava: a irmã acamada.
”Ligamos para o Corpo de Bombeiro e para a Defesa Civil para ajudarem a tirar minha irmã, porém ninguém apareceu. Com as portas travadas tive que pular a janela na esperança de encontrar alguém que pudesse nos ajudar, nessa altura a água do quintal estava minha cintura”, recordou Camila.
Frustrada em não encontrar ninguém e preocupada com a situação dentro de sua casa, Camila retornou para o interior de sua residência e só pensou em fazer uma coisa: rezar.

“Entrei em oração e pedi para que aquela situação passasse e que não causasse danos maiores para minha família. A água continuou subindo até que invadiu toda a casa. Ela parou apenas quando estava se aproximando do colchão da cama hospitalar da minha irmã”, relembrou emocionada.
A família perdeu praticamente todos os seus bens, entre eles guarda-roupas, cômodas, todos os mantimentos, armário de cozinha, eletrônicos, roupas e fraudas geriátricas. Hoje a família continua morando no bairro, porém em um apartamento.
Igrejas, amigos e vizinho se solidarizaram com a situação das moças e se uniram para doarem. Elas ganharam roupa de cama, mantimentos, calçado, fraudas geriátricas.
“Aos poucos estamos conseguindo reestruturar nossas vidas, tudo graças a ajuda das pessoas. Isso só prova que ainda existem pessoas de bom coração que se preocupa e demonstra amor ao próximo”, expressou Camila.
