Por André Aquino
Amanhecer na segunda-feira em frente ao mar de Angra era o grande prêmio que Ayrton Senna se dava após uma corrida. Nem que para isso, ele fizesse uma correria no trânsito e nos aeroportos da Europa. O importante era acordar na cidade litorânea do Sul Fluminense.
Uma mansão no Condomínio Portogalo, onde cada janela era a moldura de uma bela paisagem, a cidade servia de refúgio do maior piloto do Brasil. A casa era um convite para poucos dias de descanso entre a rotina de treinos e corridas. O local era vigiado pela cadela Kinda e o casal de caseiro, dona Maria Augusta e ‘seu’ Mateus (foto abaixo).
“Ele gostava de ficar sempre na cozinha, sentado em cima da pia, conversando e beliscando alguma coisa”, relembrou Maria, em entrevista ao Fantástico em 2004.
Durante dois anos, Ayrton Senna de tanto frequentar a casa no Portogalo que convenceu o amigo de vendê-la. A partir daí, Angra virou, de fato, a casa de Senna no Brasil.

A simpatia do herói
“Me lembro que quando Senna estava na cidade meu pai sempre levava para um passeio de barco. Tinha 12 anos e encontramos Senna se preparando para andar de Jet-Ski. Ele nos cumprimentou”, disse Fernando de Oliveira, de 39 anos, hoje engenheiro naval. “Aquele fato nos deu ainda mais admiração. Ele era uma pessoa iluminada”.
Mesmo no descanso, o hobby era o esporte: andar lancha, jet-ski, avião de controle remoto. “Ele sempre fazia competição de corrida de Jet-Ski”, relembrou Fernando Oliveira

Mecânico de fim de semana
A máxima de Senna, revelada em dezenas de entrevistas, era “faça o que ama que você fará bem feito”. A fala não era apenas da boca para fora.
‘Seu’ Mateus relembra da dedicação dele quando um motor do Jet-Ski ou de uma lancha precisava de manutenção. “Ele fazia questão de me ajudar e me ensinar na manutenção. Era por prazer”, conta Mateus, também em entrevista ao Fantástico.
Silêncio de 25 anos

Ex-vizinho de Ayrton Senna em Angra dos Reis, Augusto Gonçalves, fez um comentário nas redes sociais: “O silêncio em Angra. Casa de Senna continua fechada. 1994”, que foi postada na fanpage Senna Vive.
“Quando o Senna estava no Galo [Condomínio Portogalo] era uma festa. As crianças apostavam corridas de jet [ski] com ele, era helicóptero decolando toda hora, as lanchas passavam buzinando pra cumprimentá-lo e ele sempre retribuindo o carinho dos fãs. Uma vez acenei pra ele, e ele quase caiu do jet pra me cumprimentar de volta. Ele sempre se preocupava em passar uma boa imagem. Um ser humano formidável. – Esse silêncio ainda rola até hoje em frente à casa dele”, contou.
Num lugar cheio de lembranças, dona Maria encontra na paisagem a definição de saudade: “Quando ele vinha, o sol brilhava mais, as árvores ficavam mais bonitas… Era assim”.
De Angra para Senna

Senna ajudou levar Angra para as principais manchetes de jornais internacionais. Foi o garoto propaganda da cidade por alguns anos. Nada mais junto que a cidade retribuísse a contribuição do piloto. Logo após a sua morte, a principal via do Centro de Angra tornou-se Avenida Ayrton Senna, na Praia do Anil, com direito a um monumento para o ídolo das pistas.
A ÚLTIMA CORRIDA (*)

Perfecionista, metódico, determinado, persistente e individualista – estes eram alguns dos traços do caráter do brasileiro Ayrton Senna, um dos melhores pilotos da história da Fórmula 1 e um verdadeiro mago sob chuva ou em qualificação.
Conhecido como Beco em família, Harry durante o seu percurso nas categorias de promoção na Grã-Bretanha, ou simplesmente Mágico no “Grande Circo” da Fórmula 1, Ayrton Senna da Silva nasceu em Santana, no estado de São Paulo, em 21 de março de 1960 e morreu em Imola, Itália, a 1 de maio de 1994, aos 34 anos.
Há 25 anos, uma falha mecânica – a rutura da coluna da direção – lançou o Williams-Renault de Senna contra um muro de betão na curva Tamburello do Autódromo Enzo e Dino Ferrari, na sétima volta do Grande Prémio de São Marino, terceira prova do Campeonato do Mundo.
Senna, campeão do Mundo em 1988, 1990 e 1991, rolava a cerca de 310 km/h e a colisão violenta foi inevitável. Com graves lesões cerebrais, provocadas pela perfuração do crânio por um tirante da suspensão, acabaria por ser declarado morto pouco depois de dar entrada no hospital Maggiore, em Bolonha.
Este foi um dos fins de semana mais trágicos da história da Fórmula 1: cerca de 25 horas antes tinha morrido o austríaco Roland Ratzenberger, que, aos 31 anos, disputava o seu terceiro Grande Prémio, quando o seu Simtek-Ford embateu a 315 km/h contra um muro de betão na curva Villeneuve, após perder uma parte da asa dianteira.
Na sexta-feira, na primeira sessão de qualificação, o Jordan-Hart de Rubens Barrichello descolou na Variante Baixa, a cerca de 200 km/h, embateu nas redes de proteção e capotou três vezes, deixando o piloto brasileiro inconsciente e impedido de alinhar na corrida, devido aos ferimentos sofridos, entre os quais uma fratura no nariz.
Mas a corrida também começou mal, pois, na largada, o português Pedro Lamy não conseguiu evitar que o seu Lotus-Mugen Honda batesse violentamente na traseira do Benetton-Ford do finlandês J.J. Lehto, que ficara parado, e a colisão lançou uma roda para as arquibancadas, ferindo quatro pessoas.

Este acidente ditou a entrada em pista do “safety car”, que controlou o ritmo do pelotão até à sexta volta.
Mais tarde, perto do final da corrida, o drama voltou a acontecer, mas desta vez nas “boxes”: depois de reabastecer e trocar de pneus, o italiano Michelle Alboreto preparava-se para regressar à pista, quando se soltou uma roda do seu Minardi-Ford, num incidente de que resultaram ferimentos em três mecânicos da Ferrari e em um da Lotus.
O dramático Grande Prémio de São Marino de 1994 marcou uma viragem histórica na Fórmula 1, pois, não só obrigou a Federação Internacional do Automóvel (FIA) a alterar de forma radical as regras de segurança, como acabou por ser o momento da sucessão entre Ayrton Senna e Michael Schumacher.
(*) artigo do jornal esportivo “O Jogo”, de Portugal, em 2014.
