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Bolsonaro se silencia e Lula recebe parabéns de líderes mundiais




O presidente Jair Bolsonaro (PL) amargou derrota para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que retorna ao poder pela terceira vez. Pela primeira vez em 25 anos na história política, um presidente da República não é reeleito. Mais de meia hora após a vitória do petista ser decretada, o atual presidente ainda não havia comentado o resultado das eleições no Palácio da Alvorada, onde a imprensa em peso segue aguardando um posicionamento.

Mais cedo, ao votar no Rio de Janeiro, Bolsonaro se disse otimista com o resultado: “Expectativa de vitória”. Após a votação, Bolsonaro recebeu jogadores do Flamengo no Aeroporto Internacional do Galeão. O time venceu a final da Libertadores contra o Athlético-PR no Equador.

Neste sábado (29), a capital mineira Belo Horizonte, foi escolhida pelo presidente para sua última motociata antes das eleições.

Apoiadores de Bolsonaro acompanharam a apuração na Esplanada dos Ministérios. Já os apoiadores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficaram próximos à Torre de TV.

Base fiel e pautas ideológicas

Sem conseguir atrair novos eleitores, Bolsonaro voltou às origens e ignorou conselhos da parte pragmática do Centrão, que pedira um candidato mais sóbrio. Na prática, continuou em 2018, acenando a base fiel, defendendo ideais conservadores, como a pauta cristã anti-aborto, contra a legalização da maconha, o que chama de “ideologia de gênero” e a favor do armamento por parte da população.

Alavancado pela onda antipetista, Bolsonaro, ainda no PSL, foi eleito em 2018 com a promessa de combate à corrupção, permeada pelos sucessivos escândalos na Lava-Jato. Em 2018, durante agenda política em Juiz de Fora, pouco menos de um mês antes das eleições, o então candidato foi vítima de um atentado com uma facada que perfurou seu abdômen em Juiz de Fora (MG). A tragédia deu novo rumo à candidatura e fez com que Bolsonaro ganhasse maior notoriedade.

Já no primeiro ano de governo, Bolsonaro deixou o PSL após um racha na sigla e tentou criar um partido próprio, o Aliança Pelo Brasil, pelo qual tentaria a reeleição. No entanto, não conseguiu reunir as assinaturas necessárias para o registro e se uniu ao Partido Liberal, composto pelo Centrão. Em uma mudança de postura, o chefe do Executivo era um crítico ferrenho do grupo durante as eleições de 2018 e, agora, tem os parlamentares desses partidos como base de governo e fiadores da nova campanha.

Durante o pico da pandemia da covid-19, que já vitimou mais de 686 mil brasileiros, pregou contra a vacinação, disse que a doença seria uma “gripezinha”, negou “ser coveiro”, defendeu medicamentos sem eficácia comprovada e postergou a compra de vacinas.

Em meio à campanha por mais quatro anos na cadeira palaciana, na qual continua pregando o lema “Deus, pátria, família” acrescido de “liberdade”, o chefe do Executivo repetiu quase que diariamente “não ter errado em nada” na condução de políticas de saúde na pandemia e chegou a dizer que deu uma “aloprada” na fala sobre as mortes. Mas voltou a defender a cloroquina, como ‘tratamento precoce’, afirmou que quando falou em ‘virar jacaré’, ao se referir a possíveis efeitos colaterais da vacina, e disse que apenas usava uma ‘figura de linguagem’.

Como medida eleitoreira, com foco na população mais pobre, Bolsonaro aumentou, nos últimos meses, o valor da mensalidade do Auxílio Brasil para R$ 600, além de promover subsídios para caminhoneiros e taxistas. Também na frente econômica, destacou a queda do preço dos combustíveis. Mesmo tendo a máquina pública à disposição, os itens alimentícios e outros itens de consumo ainda seguem em alta, atingindo com mais força a população com menor poder aquisitivo. Logo, apesar dos sinais de melhora na economia, Bolsonaro não conseguiu reverter a vantagem de Lula.

Lula é parabenizado líderes europeus

Num esforço para não deixar margem para uma ruptura institucional no Brasil, líderes internacionais e personalidades se apressaram para enviar telegramas de reconhecimento da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva.

A estratégia repete o que governos democráticos fizeram diante do risco de que Donald Trump tumultuasse a eleição nos EUA, por conta da vitória de Joe Biden. Naquele momento, potências internacionais emitiram comunicados favoráveis ao democrata e, assim, impediram que o republicado derrotado conseguisse espaço e força para manter sua narrativa de que a eleição teria sido supostamente roubada.

A decisão desta vez de acelerar um reconhecimento no país foi comunicada, antes mesmo da eleição, às campanhas dos dois candidatos no Brasil. Por semanas, grupos da sociedade civil brasileira ainda percorreram capitais na Europa e América do Norte, pedindo que esse respaldo fosse dado ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

Uma das sinalizações mais importantes veio da Casa Branca. Depois de ter sido criticado por Jair Bolsonaro e ter sua própria eleição nos EUA questionada pelo brasileiro, o presidente americano, Joe Biden, foi um dos primeiros líderes mundiais a sair em apoio ao processo eleitoral no Brasil e parabenizar Luiz Inácio Lula da Silva pela vitória.

Num comunicado neste domingo, ele “congratulou Luiz Inácio Lula da Silva por sua eleição para ser o próximo presidente do Brasil, depois de uma eleição livre, justa e crível”. Ele ainda espera “trabalhar juntos para continuar a cooperação entre nossos dois países nos meses e anos”.

Nos últimos meses, Biden mandou recados claros para Bolsonaro que não iria chancelar ou dar qualquer respaldo a um eventual questionamento do processo eleitoral brasileiro.

Nos EUA, o comportamento de Bolsonaro e de seus filhos de seguir a narrativa falsa de Donald Trump de que Biden venceu a eleição foi consideradas como grave. Desde então, a relação entre Washington e Brasília viveu um dos seus momentos mais críticos.

Quase imediatamente após o anúncio oficial pelo TSE, o presidente da Argentina, Alberto Fernandez, emitiu uma declaração. “Parabéns Lula. Tua vitória abre um novo tempo para a história da América Latina. Um tempo de esperança e de futuro que começa hoje mesmo”, disse.

“Aqui você tem um companheiro para trabalhar e sonhar sobre o bem-estar de nossos povos”, afirmou.

Na Europa, o presidente da França, Emmanuel Macron, também emitiu uma nota. “Parabéns, querido Lula”, disse. A eleição, segundo ele, “abre uma nova página da história do Brasil”. “Juntos, vamos unir forças para lidar com muitos desafios comuns e renovar a amizade entre os dois países”, disse. Macron, ao longo dos anos, foi criticado por Bolsonaro e teve sua mulher ofendida pelo candidato derrotado.

O governo da Alemanha também se manifestou. “Parabéns, presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pela vitória nas eleições. Estamos felizes com a perspectiva de ampliarmos juntos e aprofundarmos ainda mais as relações Brasil-Alemanha”, escreveu o embaixador alemão Heiko Thoms.

Uma das mensagens de maior peso veio de Josep Borrell, chefe da diplomacia da UE. “A UE elogia o Tribunal Eleitoral em particular pela maneira eficaz e transparente como conduziu seu mandato constitucional durante todas as etapas do processo eleitoral, demonstrando mais uma vez a força das instituições brasileiras e de sua democracia”, declarou.

“A UE e o Brasil têm uma parceria estratégica de longa data, baseada em valores compartilhados e no respeito à Democracia, aos Direitos Humanos e ao Estado de Direito”, disse.

“Estamos comprometidos em aprofundar e ampliar nosso relacionamento com o Brasil em todas as áreas de interesse mútuo, inclusive no comércio, meio ambiente, mudanças climáticas e na agenda digital, em benefício de nossos cidadãos”, afirmou. “Também aprimoraremos nosso trabalho em conjunto em prol de um desenvolvimento inclusivo, justo e sustentável”, afirmou.

Os chefes de governo do México e Espanha também já se manifestaram, parabenizando Lula. Reino Unido, Equador, Canadá, Bolívia, Uruguai, Peru, Haiti, Panamá e vários outros também mandaram telegramas ao novo governo brasileiro.

O primeiro-ministro português, Antonio Costa, foi outro que mandou uma mensagem de parabenização ao novo presidente. O presidente português, Marcelo Rebelo de Souza, indicou que Lula vai iniciar “um período promissor nas relações fraternais entre os povos brasileiro e português”.

Miguel Diaz, presidente de Cuba, também comemorou a vitória de Lula. Nicolas Maduro, presidente da Venezuela, foi outro que aplaudiu a eleição do petista.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva foi comemorada pelo ganhador do prêmio Nobel da Paz e presidente do Timor Leste, José Ramos Horta. “As eleições foram limpas gerenciadas com muita competência e integridade pelas instituições eleitorais brasileiras com muita experiência e credibilidade reconhecidas internacionalmente”, disse.

“Justiça foi feita ao restaurar-se a vibrante democracia brasileira e assim corrigirem-se os graves atropelos ao Estado de Direito, as graves injustiças na perseguição e manipulação do poder judicial contra Lula”, disse o presidente, que apontou que foi um dos poucos no cenário internacional a sair em defesa de Lula quando esteve na prisão.

“Agora o povo brasileiro tem que reconciliar-se, sarar as feridas profundas na sociedade, eliminar a exclusão e discriminação, reunir toda a grande família brasileira multi color, multi étnico, multi cultural, mobilizar a sua criatividade para a visão de um Brasil novo, reconciliado, pacifico, solidário, fraterno”, disse.

“No plano internacional, com Lula o Brasil vai voltar ao período áureo da década da sua presidência anterior, como ilustrado então na capa da revista Economist, o Brasil estratosférico”, declarou.

“Neste mundo conturbado, extremamente perigoso, em fragmentação, sem uma carismática liderança global, Lula poderá ser a voz da moderação, o construtor de pontes de diálogo e de solução de conflitos”, completou.


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