Especial

Consciência negra: a luta pela igualdade racial e social


por Tribuna

É um fato que muitos negros ainda enfrentam o preconceito e o desafio por conta da cor da pele. Mesmo sendo velado, o racismo ainda é característica de muitas pessoas que inferiorizam o grupo por terem um tom diferente. Em muitos casos, essa intolerância vai além da discriminação e vira agressão física, verbal e moral.

Nos dias atuais, os negros estão cada vez buscando seu espaço na sociedade com a afirmativa de assumir o cabelo crespo, fazendo uso de roupas e acessórios característicos da raça de cabeças erguidas lutando sempre pela igualdade.

No mês em que é celebrado o Dia Nacional da Consciência Negra, a reportagem especial do TRIBUNA vai abordar casos de pessoas que lutam diariamente para vencer a discriminação. Pessoas fortes, com histórias fortes de superação.


Relatos sobre intolerância racial e religiosa


A religião afrodescendente é muito forte no país, praticada em grande parte pelos negros. O enfrentamento da intolerância religiosa assim como a racial é uma constante luta dos envolvidos diretamente nas causas.

Willians Falcão, assessor parlamentar da cidade de Piraí, é um dos envolvidos nas causas. De acordo com ele, um fato que foi bem marcado em sua vida aconteceu um pouco mais de um ano, quando seu grupo religioso sofreu um ataque com rojões e ofensas verbais.



— Nós estamos realizando uma de nossas sessões de Umbanda, quando um grupo nos atacou. Ouvimos diversas coisas ofensivas em relação a nossa cor e crença, como por exemplo, que nós não valíamos nada e que essas coisas de ‘preto’ tinha que ser exterminadas. Fomos a delegacia e registramos o primeiro boletim sobre intolerância religiosa no Sul Fluminense, desde então estamos esperando respostas da justiça — expressou.

Ser negro para Willians nunca foi um problema. Porém, de acordo com ele, durante sua infância e juventude o assunto não era abordado como nos dias atuais e a discriminação era entendida como piada não ofensiva.

— Todo o contexto sobre o racismo chegou na minha vida há pouco tempo, até pouco tempo atrás não se falava muito sobre o assunto. Na infância já fui sim motivo de piada, até mesmo pelo fato da minha religião, mas apesar de levar na esportiva sempre rebatia, mesmo sem entender muito —  relembrou o jovem.

Hoje ele consegue fazer a reflexão de que o Brasil é um país racista, desde a época da escravidão e, apesar de ter passado tantos anos, existem pessoas que praticam esse ato.

— Percebemos o racismo em diversos ambientes. Seja ele através de um modelo padrão de beleza ou de grandes representantes e importantes cargos ocupados por pessoas de pele brancas.

Acabar com o racismo, segundo ele, é algo muito difícil de ser possível, porém há meios de reduzí-lo trabalhando junto as autoridades a fim de torná-lo um crime com punições mais severas.

Outro caminho que pode facilitar essa redução é o investimento na educação. Willians cita que levar debates as escolas e apresentar à nova geração a importância do negro para a construção do país é uma forma de combater o racismo.

— Acredito que não tem como acabar com o racismo, mas acho que a gente pode trabalhar para que quem o pratique pague com penas mais severas. Somente assim as pessoas se tornarão forçadamente mais conscientes. A luta tem que ser para que as leis funcionem de fato sendo mais severa, explicitou.

Em sua cidade, Willians desenvolve um projeto social voltado ao grupo de crianças, jovens e idosos negros e de minorias, o Tele Centro.

— O meu trabalho envolve conversas, leituras, aula de violão, futsal com crianças de cinco a 15 anos, atendemos também a terceira idade com ginástica funcional. Trabalho a questão da representatividade com eles, mostrando que todos nós temos capacidade para chegar onde quisermos. Minha luta é para que o negro conquiste espaço de poder, considerou o jovem.


Racismo do dia-a-dia


Ir às lojas, passear pelos corredores e ter a sensação de perseguido por algum segurança da loja, apesar do absurdo é um fato que muitos negros enfrentam. Foi exatamente isso que aconteceu com a advogada Francyne Alves de Paula Lima, de 36 anos, moradora de Barra Mansa



Há um tempo, a profissional entrou em uma loja de bijuterias no Centro da cidade, no ambiente ela estava em busca de um laço para sua filha usar durante a apresentação da escola, quando percebeu que uma funcionária fez sinal com as mãos para o segurança ficar de olho nela.

— Eu estava bem vestida com roupa social. O único fato que embasava seu comportamento era a cor da minha pele. Situações como essas, são lamentáveis e apesar do racismo ser crime, a segregação e o preconceito racial ainda estão muito presentes em nossa sociedade. Os casos se multiplicam e, com a internet, fica ainda mais fácil percebê-los, revelou a advogada.

Para ela, o racismo existe, pois ação no país foi constituída de maneira estruturada, por conta dos aproximados 400 anos de escravidão e apenas 131 anos da abolição da escravatura.

— Até 130 anos, os negros traficados eram mantidos em condições subumanas de trabalho, sem remuneração e debaixo de açoite. Quando, no papel, a escravidão foi abolida, em 1888, nenhum direito foi garantido aos negros. Sem acesso à terra e a qualquer tipo de indenização ou reparo por tanto tempo de trabalho forçado, muitos permaneciam nas fazendas em que trabalhavam ou tinham como destino o trabalho pesado e informal. As condições subumanas não se extinguiram, informou.

Atualmente, Francyne trabalha como presidente da Comissão de Igualdade Racial e Intolerância Religiosa da OAB/BM.

O trabalho desenvolve ações e eventos que promovam a reflexão e conscientização da existência do racismo estrutural, e medidas que promovam a igualdade racial não somente, no âmbito da advocacia, mas na sociedade.

A advogada ainda fez questão de alertar sobre o que fazer em casos de discriminação racial.

— Em casos de racismo ou discriminação racial é importante anotar o endereço do local, caso seja estabelecimento comercial ou público, nome do autor (a), nome das testemunhas e números de documentos, e dirija-se a delegacia de polícia na cidade onde os fatos ocorreram e faça o boletim de ocorrência. Hoje já existem alguns escritórios da advocacia especializados em advocacia antidiscriminatória, esse trabalho é fundamental para o fortalecimento da luta contra o racismo e a discriminação, orientou a profissional.


Quando a cor fala mais alto que a competência


O cotidiano do negro é marcado por diversos momentos. No caso da jovem estudante de Ciência Política, Marisol Guilherme de Souza, de 27, moradora de Barra Mansa, não é diferente.

Para ela, são diversas situações que mostram que o preconceito racial ainda esta enraizado nas pessoas.

Marisol contou que somente nesse ano duas situações mostraram a ela que o racismo está cada vez mais presente em sua vida. Uma delas foi em seu antigo ambiente de trabalho e outra foi dentro de um relacionamento.



— Eu consegui um emprego na área de telemarketing, meu contato com os clientes era somente via telefone, mas isso não impedia que as pessoas que trabalhavam comigo não me tratasse de forma igualitária. Eu uso meu cabelo de diversas formas, mas geralmente ele está armado, isso era um problema. Percebia em diversos momentos os olhares de algumas supervisoras, sentia que o meu cabelo era algo que as incomodavam.

“Outra situação é que estava me relacionando com um rapaz branco e ele dizia sentir atração por mulheres negras. Com tempo, comecei a gostar dele, porém ele sempre dizia que não queria se envolver falando que não era o momento, nos afastamos, pouco tempo depois descobri que ele estava namorando uma mulher branca”, relatou.

Se sentir parte da sociedade, na fase da adolescência, era um grande desafio para Marisol. E ela confessa que durante esse período chegou a sentir vergonha da própria raça.

— Nesse período tive problema com a minha cor, com as transformações do meu corpo. Tentei me embranquecer o máximo possível. Essa é a noção de beleza que eu tinha então alisava o cabelo, me vestia de acordo com certo padrão, fora meu comportamento. Tudo isso mudou após um longo tempo, contou.

Em relação ao racismo, a jovem acredita que nos dias atuais ele ainda está mais presente que tempos atrás, pois ele é uma característica institucionalizada na sociedade brasileira.

— A teoria anti racismo é linda, mas na prática não é assim. Não existe uma resposta para como acabar com ele, pois essa é uma questão muito complexa. Mas algumas coisas já evoluíram como a inserção da população negra em locais como universidades e nos meios artísticos. Mas acredito que para garantirmos mais espaços o crime de racismo deveria ser contar com penalidades mais severas com a sociedade vendo que esse é um problema que precisa ser solucionado, considerou.

Para ela, o papel de qualquer pessoa negra para reduzir o racismo é ocupar os espaços e não ficar calado mediante a intolerância.

Tem que agir independente de como for o ataque, finalizou a estudante.

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