A movimentação financeira de Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, reúne questionamentos que o arquivamento do caso da rachadinha não chegou a esclarecer. Segundo dados bancários obtidos pelo UOL, o então deputado estadual recebeu R$ 474 mil em espécie, distribuídos em 184 depósitos sem identificação de quem entregou o dinheiro.
Os registros abrangem duas contas entre janeiro de 2007 e dezembro de 2018, período em que Flávio ocupava uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A maior parte dos depósitos era de R$ 2 mil, com várias operações concentradas em um mesmo dia.
Em 27 de junho de 2017, foram dez depósitos desse valor. No dia seguinte, outros oito. Em 13 de julho, mais 15. Na denúncia apresentada em 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro apontou o fracionamento como uma prática característica de lavagem de dinheiro.
A acusação sustentava que parte dos salários de servidores do gabinete era desviada para pagar despesas pessoais e familiares e ampliar o patrimônio do parlamentar. Flávio foi denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Em fevereiro de 2021, porém, o Superior Tribunal de Justiça anulou a quebra de sigilo. Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio arquivou o caso em decorrência da anulação das provas, sem analisar o mérito das acusações. Portanto, o encerramento não representou uma decisão judicial sobre a veracidade dos fatos atribuídos ao senador.
Despesas familiares sob investigação
Ao longo dos 12 anos examinados, as contas registraram R$ 12,8 milhões em créditos. Descontadas operações classificadas como resgates de aplicações, empréstimos e financiamentos, o valor ficou em R$ 8,7 milhões. A movimentação total, por si só, não indica irregularidade.
Os extratos identificaram ao menos R$ 2 milhões recebidos da Alerj e R$ 978 mil provenientes da Bolsotini, loja de chocolates da qual Flávio era sócio, entre 2015 e 2018.
Segundo o Ministério Público, entre 2010 e 2014 as despesas do parlamentar e de sua mulher superaram em R$ 978 mil as receitas de origem lícita consideradas pelos investigadores. A denúncia também apontou pagamentos de mensalidades escolares das filhas feitos em dinheiro pelo então assessor Fabrício Queiroz, registrados por câmeras de uma agência bancária.
Procurado pelo UOL, Flávio informou que não se manifestaria sobre a antiga quebra de sigilo.
Escritório milionário amplia cobrança por explicações
As perguntas sobre as finanças do senador também alcançam seu escritório de advocacia, aberto em abril de 2021. Segundo reportagem do UOL, a empresa emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em 62 notas fiscais entre 2023 e julho de 2026, tendo Flávio como único advogado.
Metade das notas foi emitida para outros advogados. A maioria descrevia os serviços apenas como assessoria jurídica. O UOL localizou um único processo em que o senador teria atuado para um dos clientes — circunstância que, isoladamente, não comprova irregularidade, já que a atividade de consultoria pode ocorrer fora dos tribunais.
O escritório foi registrado no endereço da casa comprada por Flávio em Brasília por R$ 5,97 milhões, em janeiro de 2021. Desse total, R$ 3,1 milhões foram financiados pelo BRB, banco público do Distrito Federal, com juros que, segundo a reportagem, estavam abaixo dos praticados pelo mercado.
Após a divulgação do faturamento, a Transparência Internacional cobrou explicações sobre como uma banca com apenas um advogado conseguiu contratos de valores tão elevados em poucos anos.
Para quem pretende governar o país e administrar recursos públicos, a transparência sobre o próprio patrimônio é parte da responsabilidade perante o eleitor. Decisões processuais precisam ser respeitadas, mas não substituem respostas claras às perguntas de interesse público.
