Cultura Sociedade - Especial

Drag Queen: a arte que não tem gênero


Com roupas extravagantes, maquiagens carregadas e muita força na peruca. Numa maneira caricata, as Drags Queens vêm se destacando cada vez mais em Volta Redonda e Barra Mansa. Porém, nem todos encaram como uma expressão artística e a profissão vem carregada de preconceitos. Mas o que é Drags Queens? Numa explicação simplória, são homens vestidos de mulheres para expressar a arte. Gênero ou sexualidade não têm nada a ver com a vertente artística. Mas, por um período, eles são elas.

Para entender melhor o assunto, o portal de notícias TribunaSF, vai apresentar nesta matéria especial, produzida pelo repórter Felipe Rodrigues, as histórias como a de Lílly Riuby, a de Clara Crocodilo e a de Agatha Christie. Elas enxergam no transformismo uma arte que tem que ser mais reconhecida e valorizada no país.

“Drag é uma arte que envolve diversas outras artes”

(Matheus Fernandes – a Lílly Riuby)

Inserido na expressão artística desde os 18 anos, Matheus Fernandes, 24 anos, revela ser um amante de todos os tipos de arte, mas confessa que sente uma ligação muito grande com o teatro.

“Desde os 12 anos eu faço teatro. Lá eu descobri que eu queria interpretar mais personagens femininos do que masculinos. Foi aí que eu descobri que existia essa arte e que se chamava Drag Queen”, contou.

O ator divide sua vida e rotina com a hostess de uma casa noturna de Volta Redonda, Lílly Riubi. “A Lílly veio bem devagar, mais precisamente em movimentos a favor dos direitos dos LGBTs, e hoje é ela que paga as minhas contas”, disse a artista, afirmando que apesar de ser difícil viver dessa arte na região, ele tem conseguido seu espaço.

Em seis anos de carreira, Matheus disse que pôde experimentar vários tipos de expressão artística, mas garante que sua grande paixão é a performance. “Eu sou apaixonado pelo palco, o que eu mais gosto de fazer é performar, pois através dela consigo levar ao público uma mensagem”, afirmou o jovem, dono do hit ‘Taca Glitter’, sucesso no carnaval de 2018 na região.

Ele é rara exceção: tem o apoio e a participação familiar em sua vida. “Tenho uma sorte muito grande de ter uma família que me acolhe e apoia, tanto no lado da minha homossexualidade quanto na minha profissão”, disse.

Em relação ao preconceito o jovem disse que para ele é algo natural e que não o incomoda. “Às vezes vejo o preconceito das pessoas através dos olhares, mas isso é algo simples de lidar. Eu nunca sofri violência física ou verbal, mas conheço pessoas que passaram por isso por ser da classe LGBT”, afirmou. Para ele, a Lílly impõe mais respeito do que o Matheus.

“A estética é um detalhe, a presença é necessária”

(Nicolas Costa, a Clara Crocodilo)

Há dois anos Nicolas Costa divide sua vida com Clara Crocodilo, nome artístico como Drag Queen e cantora de Barra Mansa. Tudo começou nas festas de ruas e em blocos de carnaval. “A Clara vêm me trazendo muitas conquistas, através dela eu expresso a minha arte dentro da música”, contou ele, sempre se referindo na terceira a pessoa. Segundo Nicolas, a música é uma arte da sua personagem e quando está fora dela trabalha apenas como técnico de enfermagem.

“Estou lançando o meu primeiro EP com quatro músicas autorais. Isso me ajuda a provar para mim mesmo que sou capaz. Para a minha autoestima isso é algo que não tem preço”, comemorou.

“Sou 50% Nicolas e 50% Clara”

O artista ainda contou que ultimamente tem recebido muitos convites para cantar e tocar como DJ no Rio de Janeiro, mas quando foi chamado para participar do maior concurso de Drags na cidade carioca que o convenceu de sua capacidade de ser um bom performático.

“A Clara foi a única Drag Queen do Sul Fluminense a ser convidada para participar do Queens Concurso. Isso foi mérito de muito trabalho. Não me considero melhor que as outros, mas sei que sou uma pessoa que se dedica ao máximo”, afirmou o performista.

Apesar de todo o reconhecimento e valorização do seu trabalho, Nicolas garantiu que não consegue se sustentar apenas com o trabalho da Clara.

“É preciso muita disciplina para colocar a vida e as obrigações em ordem, a gente tem que aprender a balancear as coisas, porém isso me fez ser uma pessoa completamente sem vida social. Sou 50% Nicolas e 50% Clara”, afirmou.

Para o criador de Clara, o pior preconceito é a falta de cultura e reconhecimento da população. “Entrar no meio artístico em geral é algo difícil, quando se trata de algo que não é convencional, as coisas pioram. Infelizmente a Drag que ingressa na carreira musical sempre terá dificuldades para se apresentar em certos lugares, mas isso não me impede de lutar e mostrar a minha verdade com a música”, citou.

Nicolas comentou que tem uma boa relação familiar. “Eu tenho muito apoio dos meus irmãos, meus pais respeitam, porém não entra nesse assunto. Eu não me monto em casa porque eu sei que não seria confortável para ele e para mim”, ponderou.

Em relação aos gastos de Clara, Nicolas garantiu que uma boa forma de economizar é usar a criatividade. “Eu gosto muito de customizar algumas peças que eu já tenho, quando preciso comprar algo, eu procuro brechós, mas mesmo fazendo essas economias o gasto mensal ainda é alto”, comentou.

Quando o assunto é estilo e inspiração, Nicolas garante que o seu é um diferencial. “Diferente de muitas Drags, eu não sou uma pessoa preza a estética, a minha produção vem sempre no sentido do que eu quero levar para as pessoas. Tenho como referência o trabalho da Vera Verão, Lacraia, Elke Maravilha. Uma galera muito brasileira que tinha mais preocupação com a presença do que com a estética”, finalizou o artista.

“Valorização artística precisa evoluir”

A frase acima é de Junior Stornelli. Famosa por seus vídeos literários no YouTube, Agatha Christie, é a nossa última personagem dessa reportagem . De acordo seu criador,  a ideia começou quando decidiu criar um canal e apresenta-lo vestido de mulher. “Eu comecei há um pouco mais de um ano, no canal ‘Lar da Agatha’, eu apresento diversas resenhas de livros que eu leio e acho interessante”, contou o youtuber.

Junior disse que seu objetivo sempre foi explorar outra linha do universo das Drags. “Eu gosto de experimentar outras coisas em paralelo, mas o meu foco é o canal. Eu já me apresentei com performista em uma festa e também promovi dois cafés literários na Instituição Casa Rosa que reuniu cerca de 50 pessoas”, contou.

Junior, que é homossexual, garantiu que tanto na vida pessoal quanto na profissional tem o apoio dos pais. “Eu tenho o respeito e o apoio dentro de casa, minha mãe sempre me ajuda escolher as roupas para os vídeos, fora a presença dela nos eventos em que a Agatha participa”, confessou. Sobre o preconceito o jovem garante que existe a não aceitação da sociedade a esse público, mas o que de fato o incomoda é a dificuldade de ser Drag e ter um relacionamento sério. “Talvez seja um tipo de preconceito, muitas pessoas não se relacionam com Drags, tive uma dificuldade muito grande de ser drag e ter um relacionamento sério, e eu estou descobrindo com lidar com esse preconceito”, expressou.

Junior contou que para ele um dos maiores obstáculos em ser Drag é a falta de valorização artística. “Essa desvalorização é muito prejudicial porque a cultura é muito importante e muitas vezes queremos consumir, mas não aceitamos pagar por ela, isso vai minguando a arte. Uma maior atenção para ela seria muito importante”, apontou.

Tanto ele quanto sua personagem é uma pessoa só. E, no momento em que está gravando, a Agatha funciona como um uniforme de trabalho. “Eu lido com a arte Drag de forma bem profissional, quando termino as gravações, tiro toda aquela produção e volto às outras atividades”, finalizou Junior.

Instituição Casa Rosa

A Casa Rosa presta apoio e auxilio a toda comunidade LGBT+, da região do Médio Paraíba do Sul. Com 17 anos de existência, em Barra Mansa, o espaço atende mensalmente cerca de 150 pessoas. Para o presidente da instituição, Jaime Pereira, apesar da Drag não entrar, diretamente, na sigla LGBT+, por ser entendido como uma expressão artística, ela está inserida no grupo, pois é uma força na luta pelos direitos da classe.

“As Drags são personagens que trabalham em cima da cultura Drag, em prol dos movimentos LGBTs, nossa instituição dá a assistência para que ela exerça seu personagem da melhor forma possível. Muitas vezes a gente apoia, auxilia, dá exemplos, troca experiências”, contou o presidente.

Barra Mansa é um celeiro para a cultura Drag

De acordo com Jaime, na região existem cerca de 40 Drags Queens, e o município com o maior número é Barra Mansa. “O município é um celeiro enorme para a cultura Drag, tendo isso em vista neste ano será realizado o primeiro Festival Drag, o espaço será aberto para todos, com oficinas, espaço para maquiagem, entre outras atividades que ainda estão sendo estudadas pelo grupo”, confidenciou.

Um dos objetivos do festival é mostrar esse trabalho como uma arte e, talvez, possibilitar na geração de renda para elas. “A Drag sempre está atrelada à movimentos da classe, na verdade ela sempre é vista como um destaque nas lutas por igualdade de gênero, temos que trabalhar a hipótese de retribuir essa dedicação”, afirmou.

O presidente garantiu, que sempre aberto a novas possibilidades e projetos.

“Sempre que alguém chega aqui com uma ideia, nós estudamos e vemos a possibilidade de colocá-la em prática. É muito importante esse trabalho de interação em grupo, pois percebemos que muitos LGBTs são introspectivos, nós fazemos todos os tipos de trabalhos para que ele saiba interagir com a sociedade da melhor maneira” contou. Jaime disse que o espaço já realizou duas edições de concursos de Drags. “Nas duas edições tivemos a participação de mais ou menos sete pessoas em cada, eles aprenderam técnicas de maquiagem, de performace e outras atividades. Isso ajuda a pessoa se conhecer melhor e, também, se sentir acolhido”, alegou Jaime.

A instituição Casa Rosa não tem vínculo com órgãos públicos ou políticos. Ela se mantem através de doações de pessoas que se solidarizam com a causa. A casa funciona no horário comercial, de segunda a sexta-feira.

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